Autoria: Olive Schreiner
Tradução: may cavalcante
Revisão: sem revisão
Ela caminhou pelos canteiros, e o rico, doce aroma das rosas encheu o ar, e ela colheu um punhado de flores em suas mãos. Nesse instante, o Dever, com suas feições brancas límpidas, veio e olhou para ela. Então ela parou de colher, mas foi embora entre as flores, sorrindo, e com suas mãos cheias.
O Dever, com seu rosto branco inexpressivo, veio outra vez, e olhou para ela; mas ela, ela virou sua cabeça para o outro lado. Por fim, ela viu o rosto dele, deixou cair as mais lindas flores que havia acolhido, e saiu silenciosamente.
Porém, novamente ele veio até ela. E ela soltou um gemido, abaixou a cabeça, e se virou para o portão. Mas ao sair, olhou para trás, para a luz do sol nas faces das flores, e chorou de angústia. Em seguida saiu, e o portão se fechou atrás dela para sempre; mas ainda em sua mão, ela abrigava os botões que havia colhido, e o aroma era muito doce no deserto solitário.
Mas ele a seguiu. Uma vez mais ele parou diante dela com seu rosto inexpressivo, branco, como a morte. Ela sabia o que ele tinha vindo buscar: ela desdobrou os dedos, e deixou cair as flores, as flores que tanto tinha amado, e afastou-se sem elas, com mãos que nada mais abraçavam. Mas ainda ele olhava. Então, por fim, ela abriu seu seio e tirou dele uma pequena flor que havia escondido lá, e deitou-a sobre a areia. Ela não tinha nada mais para dar, e vagueou para longe, e a areia cinza fez redemoinhos à sua volta.
Anotações à Margem
Olive Schreiner (1855 – 1920) nasceu e morreu na África do Sul, embora tenha vivido vários anos na Europa. Era feminista, ativista e livre pensadora, mas sempre evitou, em seus trabalhos, o radicalismo político.
O conto The Gardens of Pleasure, traduzido acima, foi primeiramente publicado em fevereiro de 1888 na revista Woman’s World, e depois incluído na coletânea de alegorias da autora intitulada Dreams, em 1890.
Sou apaixonada por esse texto por que quando o leio, “Mexe qualquer coisa dentro, doida
Já qualquer coisa, doida, dentro mexe”, copiando Caetano. Há pouco, quando estava editando para a publicação, não consegui segurar as lágrimas e precisei parar e aceitar o carinho consolador da minha cachorra.
Observação: Obra original em domínio público.
Para queixas, palpites ou o simples prazer da réplica, mande-nos uma correspondência aqui. As e-missivas recebidas poderão, oportunamente, ser respondidas na nossa página Correio da Lambisgoia.